Sobre despesas e o bolso de cada um

      De uns tempos pra cá tenho percebido que existe uma idéia circulando mundo afora segundo a qual pessoas que se interessam por moda e dedicam um pouquinho do seu tempo pra escrever sobre tal assunto – por mais pouquinho que seja – passam parte considerável do seu tempo livre (ou não) “curiando” o que há de novo e, sempre que possível, comprando. Quando eu olho pelo lado do Nós 4 acabo percebendo que, na verdade, isso é… absolutamente real.

      Semana passada, enquanto realizava com Maria e Thalita um de nossos incontáveis passeios pelo shopping, comentei sobre a necessidade de controlar um pouco os gastos, e chegamos à conclusão de que este não é um problema somente meu. Isso estava me incomodando um pouco mais desde a noite anterior, quando compartilhei com um amigo o que a minha mãe diz: “enquanto você compra sem precisar, tem gente que precisa e não pode comprar” (sim, ela diz isso) todas as vezes que apareço com algo novo, e ele me contou que não compra nada que não precisa, pois “casa e filhos fazem com que você esqueça outros gastos”.

      Depois dessa conversa eu tinhas duas opções: A primeira seria pensar que já que não tenho casa nem menino pra criar, poderia fazer a festa com meu dinheiro (que nem é lá essas coisas), depois de passar um mês trabalhando para tê-lo. Já a segunda, merecedora de um pouco mais de esforço da minha parte, seria considerar o fato de que após um mês trabalhando, o $ recebido deveria ser mantido com um pouco mais de zelo e carinho.

     Enfim, minha vida financeira não é questão a ser abordada aqui. O ponto no qual quero chegar é que é muito cômodo para nós assumirmos essa postura de “ah, o dinheiro é meu, posso fazer o que quiser com ele”. Como jovem adulto de classe média, cujos pais se esforçaram para dar o que havia de melhor, e que por isso teve acesso ao que havia de melhor (dentro do possível), eu, assim como meus amigos e muitos outros de nós, esperamos ansiosamente pelo dia em que poderíamos vislumbrar certa independência financeira, e que poderíamos consumir sem dar maiores satisfações, o que quer que fosse: roupas, perfumes, CDs, livros, carros, remédios… Não importa o interesse de cada um, e sim que chegou o dia em que várias coisas antes cobiçadas através das vitrines, revistas, telas de TV e computador poderiam ser materializadas.

      Somos a primeira geração de adultos que cresceram com a facilidade da aquisição dos importados e das compras pela internet, e que não se perceberam “obrigados” a saírem da casa dos pais para lidar com despesas domésticas. Tudo isso depois de assistirmos com olhos arregalados a última grande inflação, quando eu não entendia por que coisas básicas tinham que ser estocadas em casa, pois o preço dobrava em uma semana. Lidamos, pois, com um volume de informações distoantes em um espaço de tempo relativamente curto. Trauma infantil? Não! Mas talvez a liberdade que sentimos por administrarmos nossa vida financeira em uma economia um tanto quanto estável e – por que não – permissiva, faça com que percamos (seria essa a palavra certa?) um pouco o freio dos nossos gastos, e  ultrapassemos o limite do bom senso.

      Tudo bem, o chatonildo aqui sabe que cada um faz o que quer do dinheiro que ganha, antes de qualquer possível argumentação. Mas o que quero aqui não é convidar quem possa estar lendo este post a ser adepto da Simplicidade Voluntária, até porque eu gosto de comprar e consumir e acho a vida bem mais interessante por me permitir isso; muito menos pregar uma mensagem de caridade e sustentabilidade, pois já tem um monte de gente que faz isso. Eu também sei que é o consumo move o mundo, mas talvez seja o momento de questionar que tanto eu estou retirando deste mundo pra guardar no meu guarda roupa. Será que o que está sendo acumulado lá dentro (ou o que está por vir) não ocupa espaço desnecessário? Será que parte disso poderia sair, ou nem mesmo vir, e que minha vida em nada mudaria por isso? E se, em último caso, despesa continua sendo a “palavra de ordem”, será que eu não posso simplesmente gastar com outras coisas (passeios e eventos culturais, por exemplo) e pegar leve com os bens materiais?
      É uma série de “serás” para a qual não tenho resposta, e que, como bom gastador que sou, me desafio a tentar descobrir também.

7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. larissa
    mar 01, 2012 @ 07:05:09

    como sempre: texto interessantíssimo!! ai ai.. me fez pensar um bucadinho!!

    bjus gente!! saudades dos passeios do shopping com vcs!!

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  2. Gean Prado
    mar 01, 2012 @ 13:01:16

    Viajo nos textos de Augusto Dantas. Como sempre, perfeito…

    Responder

  3. Thalita Cavalcante
    mar 01, 2012 @ 13:58:06

    E eu cada vez mais me pergunto se todo o dinheiro que emprego em roupas, maquiagens e afins não seria melhor aplicado em um carro, nos móveis da minha futura casa, em mais viagens ou, até mesmo, numa poupança para uma necessidade futura. O consumismo me consome.

    Responder

  4. Itallo Victor
    mar 01, 2012 @ 16:25:03

    Certa vez minha irmã perguntou ao ver um mendigo, criança, na porta de casa pedindo comida: Mãe, por que ele tá pedindo comida?
    Ela respondeu: Os pais dele não tem condição de dá comida e botam eles pra pedir.
    Daí a ela disse quase chorosa: Eu não quero pedir comida, mãe.
    Minha mãe: Basta ter consciência.

    Parece uma situação boba de criança e nem provocar reflexão alguma, eu tava alheio ao diálogo e lembro algumas vezes quando vejo pedintes no sinal ou moradores de rua e afirmo: passar dificuldade não será problema, posso trabalhar em muita coisa e não ter vergonha, difícil é ter consciência.

    Acho que é válido pro nosso consumo muitas vezes inconsequente.

    Responder

  5. Joyce
    mar 03, 2012 @ 21:33:00

    Bom texto Augusto! Essa questão do consumo é algo que precisa ser sempre revista e pensada ( também não quero ser uma “chatonilda”), mas também acho que o consumir é uma escolha. Tem gente que escolhe não fazer isso, não ter um carro, não ter uma TV… É engraçado que as pessoas nunca param pra pensar assim! posso simplesmente não fazer. Ultimamente tenho revisto minhas prioridades, ando fazendo outras escolhas. Claro que sei que em nosso mundo o não consumo seria algo muito difícil de praticar.

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  6. Tonny
    mar 05, 2012 @ 09:35:23

    Massa demais, cara. Assim como seu novo corte de cabelo 😛

    Apoiado

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  7. Ana
    mar 05, 2012 @ 16:16:37

    Claro que não posso viver sem certas coisas, mas posso viver sem aquela calça alí, aquele restaurante acolá, aquele último carro do ano, o celular mais moderno, aquela viagem, enfim…
    Consumir não é ruim! Ruim são os excessos. Estocar, guardar, acumular, colecionar coisas, não faz com que me sinta melhor e nem mais feliz, principalmente quando lembro da frase: minha filha, tem tanta gente que PRECISA e não tem.
    Acho que o que nos falta, é pensar que sempre pode ser pior. E não se trata de conformismo não, apenas uma questão de bom senso. Mães quase sempre tem razão.

    Responder

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