Minha gente, moda também é coisa séria!

Dia desses uma amiga minha falava sobre um falecido professor da universidade, que esbravejava o tempo inteiro: “Curso de verdade é só medicina e direito, o resto é tudo corte e costura!”. Depois que ri do absurdo lembrei que, de fato, quando realizamos certas escolhas temos que lidar com as opiniões alheias, que às vezes exigem um pouco mais de espírito esportivo da nossa parte.

Digo isso porque durante os quase dois anos que passei no curso de moda, escutava boa parte do tempo perguntas do tipo: “E aí, já pagou aquela disciplina de pregar botão?”, “E a aula de aprender a usar a agulha, como é que é?”. Uma vez, enquanto estava no ônibus, cansado, voltando pra casa já depois de 22:00 hs, tive que escutar uma condenada dizer pra uma amiga que ainda ia fazer algum curso na federal, nem que fosse moda. Considerando que ela estava a várias cadeiras de distância, nem preciso dizer que ela conversava em alto e bom som, toda cheia de orgulho do absurdo que dizia.

Sim, mas aí eu tô nessa conversa toda e alguém me pergunta: “mas, e aí, o que vocês aprendem além disso?”. Bom, a gente aprende que, se a tendência para a próxima estação é o turquesa, existe todo um sistema de mercado por trás disso. Aprendemos que moda move muito dinheiro e gera oportunidades, e talvez seja esse o seu principal papel na atualidade.  Aprendemos também que é importante estudar as pessoas e os grupos, para que possamos entender comos estes usam o corpo para se expressar, o que pensam, o que querem, quais são seus anseios, como se comunicam com os outros por meio do que usam. Aprendemos que tudo possui uma história que deve ser repetida, para que possamos compreender o caminho pelo qual chegamos até onde estamos, e que isso engloba inclusive a roupa que temos bem ali no nosso guarda-roupa. E para isso nos deparamos com várias teorias. Algumas meio complicadinhas, claro, mas que ficam cada vez mais interessantes, à medida que certas coisas começam a tomar um novo rumo na nossa cabeça, e a adquirir um novo significado.

Nesse momento nomes como “Chanel” e “Dior” deixam de ser apenas sinônimo de acabamento perfeito e cifras multimilionárias, e passam a ser representativos de pessoas que em algum momento souberam captar os anseios de uma geração e materializaram estes em elementos aparentemente simples, mas muito significativos. Aprendemos que quando Mary Quant resolveu colocar as pernas de fora na década de 60, a intenção dela não era apenas causar comoção. Acreditem, minha gente, nenhuma dessas pessoas escolheu o caminho mais fácil. Aprendemos, portanto (e principlamente, talvez), que na maioria das vezes revoluções são necessárias.

Lógico que aprendemos também a pregar botão e a usar agulha (e muitas outras coisas), e que isso dá muito mais trabalho do que imaginamos, mas que também é muito mais divertido (juro). Para aqueles que ainda têm dúvida, fico devendo aqui um post com a indicação de alguns livros bem interessantes, e nada chatos.

Ah, e a faladeira do ônibus nunca mais eu vi. Fico me perguntando aqui se ela daria conta do recado…

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Isabella
    jun 13, 2011 @ 13:11:32

    Isso é que é um blogueiro de verdade! 🙂

    Responder

  2. larissa simeão
    jun 13, 2011 @ 19:02:02

    amooo!!

    Responder

  3. Larissa
    jun 13, 2011 @ 21:55:53

    Bom artigo! Eu sempre fico tentando relacionar um as cores dos carros com as cores da moda, pensando que a indústria de pigmentos é uma só. Acho que só entender a lógica do mercado de pigmentos que vão em tudo, desde o esmalte à pintura da geladeira, deve ser um trabalho interessante.

    Moda tem muito a ver com a arquitetura, os princípios são os mesmos, só que trabalhamos com suportes diferentes!

    Responder

  4. Joana Campos
    jun 14, 2011 @ 12:24:53

    Augusto, as pessoas nao param para pensar que vivemos na logica do mercado. Nenhuma moda é a toa…
    Ah, ande com um exemplar do “Alô, chics” e dê de presente para a faladeira do bus, caso vc cruze com ela por aí. Não é chique ficar falando alto (e besteira) no meio do povo. =P
    Beijos, coisa linda

    Responder

  5. Ana Cereza
    jun 15, 2011 @ 17:52:26

    Imagina eu, Augusto. Saindo da publicidade, estudando moda e… fazendo curso de costura! São mil piadas, dos amigos mais próximos aos desconhecidos, passando pelo ex chefe de trabalho.
    Sempre que viram e me perguntam: “ai, e tu vai virar é costureira?” eu respondo: “tá vendo essa tua roupa bem aí, que tu ta usando? Ela foi estudada pra ser assim, ela seguiu um raciocínio, horas de trabalho para chegar nesse desenho. Agora imagina que alguém atrás de uma máquina costurou pedacinho por pedacinho, pensando que vai deixar alguém bonito. pois é, se for pra ser costureira, serei. Talvez seja mais importante que seu trabalho”.
    Tenho pena os que acham que é apenas isso. Que moda se resume a costura, publicidade à panfleto… Mas aí me lembro dos médicos que sempre que dizem sua especialidade tem que ouvir “ooow, aproveitando… tou com uma dor aqui…”

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

@thalitaviana

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

@venniciuscastro

Erro: Assegure-se de que a conta Twitter é pública.

Nós 4 team

rodape
%d blogueiros gostam disto: