Quanto vale ser comum? #PFW

Semana passada a gente aqui do Nós4 fez uma cobertura (por assim dizer) do Piauí Fashion Week. Foi um processo, embora cansativo e até frustrante em alguns momentos, divertido.

O clima no local estava muito agradável, as pessoas muito simpáticas, todas muito bem produzidas, os olhares atentos, moças muito bonitas desfilando entre os convidados, os estandes de um modo geral muito bem decorados – destaque para a Revista Yay, que mesmo eu sendo suspeito para falar, foi unânime na opinião do público (e vamos ignorar o que o ‘Piauí Center Modas’ e o ‘Expocenter’ fizeram quando esfregaram na nossa cara aqueles banners de lona de uma pobreza estética que dava até dó). Muitos rapazes super descolados. Gente fina, gente curiosa, gente esnobe (afinal era um evento de moda). Gente de todo jeito. Uma decoração caprichada, petiscos e drinks à vontade, música boa, fotos, muitas fotos.

Devo admitir que fui com alguns receios, afinal, não sou consumidor de nenhuma das marcas que se apresentaram no evento, por simples falta de identificação mesmo (e também pelo fato da maior parte delas terem produtos voltados a priori para as mulheres). Não são meu tipo. Mas me surpreendi com o “esforço” que fizeram na tentativa se serem dignas de tamanha exposição.

Todos aqui sabemos que o evento está no começo, assim como o processo de criação das próprias marcas. Não esperava que nenhum desfile apresentasse algo que tirasse meu fôlego. E nem poderia mesmo, já que nenhuma das marcas se propôs a apresentar um simples release de suas coleções. Enfim, embora eu não seja um profundo conhecedor da rotinha ‘fashionista’ dos circuitos internacionais, sei que tenho senso crítico para criar minhas próprias opiniões. E é com base nesse senso que estou escrevendo esse post.

“- Eu não posso dar credibilidade para um evento que apresenta a Sheila Carvalho como modelo num desfile de moda!” – eu disse várias vezes.

Não tenho nada contra a Sheila Carvalho. Mas e o contexto?

Vi num portal daqui de Teresina uma lista com as supostas celebridades que se fariam presentes no evento e aquilo me doeu.  Cauã Reymond (o mais aguardado), a moça Sheila, as ex-BBBs Priscila Pires e Adriana (não sei o sobrenome da segunda), Alexandre Borges, André Marques, Bruno Gradim, e Clara Tiezzi (acho que só esses mesmo). Ocorreu que a maioria dessas pessoas não estava lá . Santa Constanza Pascolato interviu mentalmente contra tamanha heresia.

Não tenho nada contra a Sheila, Cauã, Priscila, Alexandre, André, Bruno muito menos Clara Tiezzi (que é uma fofura). Mas e o contexto?

Me doeu ver nos comentários no tal portal a euforia causada por essas celebridades no público, que manifestou um fervor quase religioso no desejo de prestigiar essas pessoas. Mas e as roupas? E o que agrava ainda mais a situação é o fato de muitas dessas “celebridades” serem pagas para simplesmente circular pelo evento e serem fotografadas. Me sensibilizei com sofrimento do pobre Maurício Mattar encolhido no fundo de um sofá, escondido, no escuro, fraco, quase sem vida, sem forças sequer para sorrir, enquanto um outro famoso dava voltas e mais voltas  pelo salão esperando ser abordado por uma alma caridosa: “- Tira uma foto comigo!”

Eu não posso participar de um projeto que pretende explanar sobre moda e me omitir diante do que vi. Não é bom ver um produto ser vendido só pela embalagem, consumir é pior ainda. E quando a embalagem nem interessante é, e o consumidor não está reconhecendo isso, além de ruim, é preocupante.

“- Gente, isso não tá certo!” – eu não parava de pensar.

As máquinas digitais se erguiam do meio daquelas fileiras de cadeiras extremamente apertadas cada vez que algum ‘famoso’ entrava na passarela e se recolhiam quando ele saia, cabia aos fotógrafos profissionais registrar o que de fato deveria e merecia ser registrado. “- Mas se não tiver esse povo, ninguém vem!” – ouvi muito. Será? Será mesmo? Será que a produção é tão desinteressante assim. Acho que não. Prefiro achar que não.

Sei que pensar à longo prazo é difícil (coloque junto ao significado da palavra ‘difícil’ uma dose de prejuízo financeiro). Mas são vocês, empreendedores, estilistas, designers de moda, revendedores, empresários, patrocinadores, os responsáveis em mostrar para o público o que de verdade deveria ser a moda. Não subestimem o povo tanto assim, para não serem tão subestimados de volta. Não estou sugerindo uma modelo em chamas entrando na passarela, mas gostaria de ver mais do que eu já vejo em qualquer pessoa num passeio pelo Riverside.

Não tratem a moda como se ela fosse um filme da “Sessão da Tarde”, nem bom, nem ruim, sem gosto, sem cor, mas já que não tem outro, serve pra todo mundo. Gostaria de mais personalidade e menos medo. Não façam da Semana de Moda Piauiense (sim , ainda acho que este deveria ser o nome do evento) uma simples busca desesperada por uma pulseira de plástico. A Preta Gil não pode ser o foco de uma noite.

Mostrem, de fato, todo o Piauí que vocês defendem e dizem representar. Agreguem valores, não simplesmente confeitem um bolo onde falta açúcar e trigo. Isso é moda ou só um mercadinho de roupas? É mais importante vender ou de fato ser importante? Identidade artística ou populacho?

Por uma Semana de Moda Piauiense com MAIS MODA e menos Cauãs, Priscilas, Sheilas, Pretas e dvds da Beyoncé.

P.S.: Meu nome é Vennícius Castro, escrevo neste blog e este post em especial é de autoria exclusiva minha.

10 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Augusto Dantas Jr.
    maio 11, 2011 @ 00:35:03

    Valeu, filho!
    Nada como um suspiro depois de um desabafo.

    Responder

  2. Ana Paula Viana
    maio 11, 2011 @ 16:21:06

    O post de Venícius é de uma lucidez rara. Muito bom!

    Responder

    • vnicastro
      maio 11, 2011 @ 17:59:55

      Obrigado, Ana Paula. Agora é continuar torcendo pra que as coisas melhorem com o tempo. Mas que não demorem muito hehe Abraço.

      e Guto, supiro bom mesmo! hahaha

      Responder

  3. Márcia Cristina
    maio 11, 2011 @ 20:01:37

    Gostei muito do seu artigo!!! Fala a verdade de maneira bastante descontraída e bem humorada!!!

    Responder

  4. Ju
    maio 12, 2011 @ 10:27:16

    Parabéns, Vini! Claro como a luz do sol.

    Responder

  5. sergio donato
    maio 12, 2011 @ 12:42:19

    Perfeito! Muita gente pensa assim, mas se cala pra “não se queimar” com os amigos.
    Continuem assim.

    Responder

  6. Itallo Holanda
    maio 15, 2011 @ 10:34:24

    E ainda teve gente que disse que a moda no Piauí estava na pior… E não é que elas tem razão.

    Deixando as brincadeiras de lado é incrível como esse reflexo é do mercado local. Não só em eventos de moda como nos encontros regionais de alguma profissão, eventos esportivos, casas de shows que têm listas de convidados e para os pagantes os preços cobrados são exagerados e o puro descaso de uma capital não ter um Centro de Convenções para realização de eventos.

    Responder

  7. Páua
    maio 16, 2011 @ 13:01:00

    Concordo em tudo, principalmente sobre o nome do evento (para que imitar o spfw), e sobre as “celebridades”, acho que podem sim chamar convidados “vips”, mas tem que ser convidados que possam agregar valor. Acho que o que mais falta para esse evento é personalidade. Ser Piauí, e não uma desastrosa imitação.

    Responder

  8. Andressa Rodrigues
    maio 17, 2011 @ 21:39:56

    Vennícius, concordo em tds os pontos com vc! Qd fui ao PIFW com minha mãe falei sobre isso e ela me disse pra ser menos “chata”, q o importante era que ja estavam tomando a iniciativa. e não, o importante não é fazer o evento, é se programar para fazê-lo bem feito. no final das contas tornou-se mais uma festa para os “bem nascidos” terem a chance de se sentirem importantes no final da noite. Engraçado que poucos dias antes, umas amigas do meio fashion – com conteúdo e bagagem para falarem com propriedade sobre o assunto – e eu abordamos o aspecto dos famosos que seriam convidados. Ex-bbb é convidado de ensaio nú e festa de periferia. Os próprios desfiles em si mostram o qt a cabeça piauiense em sua maioria, claro que há exceções, é pobre e atrasada para o assunto. Porque aqui existem sim grandes artistas do ramo, e que por saberem valorizar seus produtos e nome não se expõem nesse tipo de evento. Queria eu que os organizadores lessem esse tipo de crítica e soubessem aproveitá-la. Parabéns pelo texto!

    Responder

  9. vnicastro
    maio 18, 2011 @ 12:34:53

    Márcia, Donato, Páua e Andressa, primeiro obrigado pela visita (desculpa a demora em responder… mas é que a vida da gente é sempre corrida né?). Então, fico feliz de saber que tem gente que compartilha da mesma opinião e que entendeu o que eu quis dizer. Quero deixar claro que não é minha intensão “denegrir” a imagem do evento, ao contrário, poderia estar pouco me importando, mas por acreditar justamente que tem gente boa aqui pra trabalhar, eu tento ter uma visão positiva e torço pra que as coisas melhorem. Só tentei fazer uma análise do que vi (e deixei de ver).

    Itallo, infelizmente tenho que concordar contigo. Teresina ainda anda muito despreparada.

    e Ju, carinho, você é que é a luz!

    Abraços

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

@thalitaviana

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

@venniciuscastro

Erro: Assegure-se de que a conta Twitter é pública.

Nós 4 team

rodape
%d blogueiros gostam disto: